5 de janeiro de 2012
Silencio na floresta
De tempos e tempos, coisa bem rara mesmo, a floresta mergulhava em silêncio profundo. Não se ouviam os piares e gorjeios dos pássaros, tampouco rugidos tenebrosos tigres e leões. Nem mesmo os lobos uivavam durante a noite, e nem os grilos tocavam sua irritante melodia. As corujas não piavam sua sabedoria, e nem mesmo os macacos se finavam em risos de suas piadas sem graça. E este era um destes raros momentos em que o tempo parecia entrar num lapso, onde como se algo, ou alguém tivesse apertado o botão “pausar” para mergulhar o lugar em breve descanso. O viajante, experiente e conhecedor de cada recanto do mundo, que por ali passava, sabia que teria de apressar seu passo, pois em breve todo aquele silêncio chegaria ao fim, e o final do recesso, era sempre a hora em que tudo entrava em combustão.
29 de dezembro de 2011
O velho, e o novo ano!
No oráculo do tempo vinham em direções distintas e opostas a personificação material dos anos. Rumando para uma porta onde dizia “Chegada”, ia um jovem garboso e cheio de energia, enquanto na outra direção, onde havia uma placa em que se lia “Saída” rumava a figura de um velho, encurvado pelos dias que lhe coube o trabalho. Impetuoso como os jovens, o Novo ano caçoou com o que deixava o posto: - Já vai tarde velho, deixa eu te mostrar como se faz. Disse Ele. Então, quando já sumia por entre a porta, o velho parou e com a voz calma e orientadora, olhou o mais jovem e respondeu-lhe: - Veja bem menino, é fundamental olhar e planejar para frente, mas saiba antes de tudo, que seu trabalho será a partir da base que vos deixo, e dos que meus antecessores assim me deixaram, sejam elas as coisas boas, e más. Mas logo aprenderás isso. Aliás, bom trabalho! Dito, isto desapareceu deixando o trabalho pra o jovem, que maravilhado assistia a queima de fogos por sua chegada.
Feliz ano novo!
22 de dezembro de 2011
No natal...
Era noite de 24 de dezembro e as ruas da cidade estavam praticamente desertas. Famílias se reuniam e fogos estouravam por toda parte. Nos televisores e nos cartazes, uma figura traçada por mestres da publicidade mostrava-se mais popular que a presidenta. Numa destas ruas vazias prosseguia um homem cuja imagem se esvaia durante o andar, como uma lâmpada que perde a energia. Andava cabisbaixo e esquecido. Então um som cortou o ambiente e o homem viu o jovem que vinha em sua direção atrás de uma bola desgarrada. O jovem pegou a bola, e ficou de frente a estranha figura que parecia apagar-se. - Jesus? Questionou o jovem. O homem que nascera exatamente naquela noite contou que o esquecimento do verdadeiro significado do natal estava fazendo-o desparecer. Após a breve conversa, os dois despediram-se, e o jovem regressou para casa sabendo que tinha uma nova missão.
29 de setembro de 2011
Anônimos
Ao lado deste mundo existe outro. Chamam-no de "País dos Anônimos", e em tudo ele assemelha-se ao nosso. Exceto numa única questão os dois mundos se diferenciam, pois lá não existem escritores. Haverão aqueles que dirão, "grande coisa", mas este pequeno detalhe os tornava muito distintos, e no "País dos Anônimos", a desordem reinava. Lá não existia opinião, pois não existiam colunistas. A informação não circulava nem ficava registrada, pois não havia ninguém para escrever jornais. Não existiam televisão, pois sequer imaginavam poder existir redatores. O conhecimento não se propagava pois não haviam livros, e nem mesmo a fantasia amainava as almas, pois sem escritores não havia quem contar histórias. Inventos deixaram de ser imaginados, e heróis ficaram no anonimato pela falta de registro. Hoje aquele mundo está quase perdido, mas quem sabe se a revolução não traga a motivação necessária, para que seus habitantes comecem desde já a rabiscar seus sentimentos e suas sensações. Pois só assim pode salvar-se o "País dos Anônimos".
8 de setembro de 2011
O Monstro do Bloqueio Criativo
O escritor estava de frente ao teclado. Ele sabia que inspiração é desculpa aos que não escrevem com rotina, mas mesmo assim parecia sucumbir a este mal, cujo ataque vinha do temível Monstro do Bloqueio Criativo, um ser sem rosto e sem cor capaz de atacar com seus incríveis raios da mente vazia, e jogar aquele que escreve num universo onde reina o vazio. Não sabia o que escrever. O mundo parecia sem atrativos, e sequer uma única palavra saltava de seus dedos para a tela do computador. A página seguia em branco, e ele não conseguia lutar contra o temido monstro. Foi então nesta batalha épica que decidiu ele contar desta luta, e deste ser que ataca as pessoas que precisam criar, e foi quando finalmente a brancura do universo vazio foi sendo tomada pelas tintas das palavras. No final do dia sorriu, e percebeu a quantidade de batalhas que o escritor enfrenta em seu dia a dia;
31 de agosto de 2011
O Cabide
Algumas coisas na vida podem lhe passar despercebidas. Uma delas certamente poderia ser aquele cabide. Escondido atrás da porta, nenhum dos visitantes se sensibilizavam com sua presença. Aliás, os anfitriões de alguma forma também não o notavam, afinal era apenas um único cabine. Sozinho, e solitário a receber casacos e casacões. No entanto, um dia, por artimanhas que apenas um cabide pode bolar, aquele cabide viu uma janela, e por ela partiu. Naquela noite, haveria uma grande festa daquelas que só aquela casa sabia fazer. Os convidados tão acostumados que estavam com a presença não notada, lá enfiavam suas vestes, até que alguém percebeu uma montoeira de roupas. No meio de toda aquela bagunça todos se perguntavam onde estaria o cabide?
16 de agosto de 2011
Shan Zen
Shan Zen foi o escolhido. Em seu nascimento todos os deuses uniram-se para formá-lo com o que havia de melhor entre todas as crenças. Um ser feito com um pouco das virtudes de cada povo a habitar o mundo, e seus poderosos deuses. Os onipresentes acreditavam que nele estaria a redenção de todos os homens, pois habitava sua alma com o melhor que havia em todo o universo. Para todas as perguntas, Shan Zen nasceu com as respostas. Por isso desde sua infância os olhos voltavam-se curiosos para ele. No entanto, mesmo com essa dádiva, e assustado pelos olhares indagadores de seu séquito, o escolhido resolveu retirar-se para uma caverna nas montanhas. Enquanto não compartilhava com os homens os dons concedidos, em nada adiantava ter os poderes que tinha.
8 de agosto de 2011
O caminho
Sabe quando você tem a nítida sensação que querem te impedir de fazer algo, ou chegar a algum lugar? Era justamente esta sensação que tinha.
Não sei por quanto tempo estou em busca do que procuro. Tampouco sei o que procuro. Apenas sinto-me impulsionada a cruzar por esta estrada de paisagens inóspitas. E tão longa que não posso estimar por quanto tempo estou viajando.
Mais remota entre as lembranças, a saída de um imenso túnel. Lembro-me vagamente da sensação de abandonar o breu, e enfim sentir o alívio do ar irradiando meu corpo. Olhava para trás e me sentia oprimido. Justamente o oposto me vinha ao vislumbrar o horizonte longínquo, tão iluminado, tomado por um azul tão lindo como os que banhavam os jardins celestiais.
Foi naquele momento que joguei-me a caminhar.
A estrada em princípio de asfalto tão liso e incapaz de incomodar aos meus pés desnudos. Aliás, eu mesmo caminha desnudo por terras tão esquecidas. No entanto depois de tempos, estes mesmos pés caminharam sobre todo tipo de piso, e hoje sangram em meio a estas pedras.
A estrada, que reta, vez por outro mostrou-me desafios. Paredes que fizeram de mim um alpinista. Minhas mãos ganharam firmeza em cada paredão que tentou ousar distanciar-me de tal lugar, por qual perseguia.
Em outras vezes paciência foi-me exigida, como quando que por vários dias e várias noites, sentei-me a esperar a maior manada de búfalos que pude ver, cruzar cortando meu caminho. Um mar negro como barreira, que dobrou-se perante minha calma, assim como o mar vermelho certa vez fora partido ao meio.
Em outras ocasiões, porém, mais que paciência, exigiu-se de mim a força, e não menos que maia dúzia de feras monstruosas tive de derrotar. Elas claramente querendo interpor-se entre mim e meu destino, como se não fosse eu digno da glória de chegar á local tão desejado.
A última dentre estes foi uma besta assustadora, que por sinal a mais difícil de ser vencida. A ela pertencem os arranhões que rasgam a pele de minhas costas. Vez por outra eles ardem em febre, e recordo da criatura miscigenada num misto de urso e polvo, cujos tentáculos eram providos de garras mortais. E depois de recordar, então sorrio lembrando que a mim pertence á morte de tal figura monstruosa.
Noutras vezes seja quem for que tenta me impedir, usou da tentação. É o meio mais fácil de corromper os homens. No entanto não sabiam que sou incorruptível.
E foi quando o caminho parecia-me mais ameno, e todo o campo coberto por uma macia e verde grama. Cercado por um jardim, onde todas as flores do mundo se dispunham intercaladas, num colorido magistral, o caminho era um deleite. Foi quando enviaram-na.
O negro de seus cabelos resplandecia tamanho brilho. Seu corpo nu exibia a mais perfeita tez, entre todas. Seu corpo languido exalava o perfume da paixão. Ela caminhava de tal forma que o erotismo era explícito. Mas ignorei-a. Ela, seus olhos cativantes, e seus seios clementes por afago.
E foi desta forma que tenho caminhado. E mesmo que agora caminhando sobre pedras, sei que mais próxima do fim está minha jornada. Há certeza em meu coração que depois do imenso cânion, está meu destino. O lugar enfim, tão desejado.
Os passos são mais ligeiros. Mas há ainda, uma tentativa de impedir-me a atravessar a decrépita ponte, que une o lado indesejado, aos jardins tão sonhados por mim, cujo céu emana a paz, e terra remete ao descanso. A derradeira tentativa, porém deve ser dos argumentos o mais convincente. E acredito que tal repertório esteja bem reduzido.
Então sobre uma pedra que repousa perto à cabeceira da ponte, surge o pequeno ser. Seus cabelos iluminados refletem o ouro em cada cacho. O púrpura dos olhos joga-me a um mar de saudades, e então cada vez mais familiar revela-se aquele rosto que poderia confundir-se a um anjo.
— Se cruzar esta ponte, não terá como voltar. Como as canções que nos acalmam, a voz docemente infantil e ingênua prosseguiu. — Papai eu não quero que você morra... Por favor, não morra!... Disse chorando de uma forma verdadeira que apenas as crianças, podem fazer.
Este era um bom argumento, e um excelente motivo para jogar-me pelo caminho da volta. E a luz por qual buscava, deveria estar dentro do túnel, o qual não deveria ter saído para passear.
— Papai já está indo. Disse-lhe eu tentando tocar a imagem que esvaecia na paisagem, até sumir por completo.
Enquanto caminha de regresso, a máquina então muda naquela alva sala, começou a falar novamente. Bip. Bip... Bip...
2 de agosto de 2011
Entrevista de emprego
― Querido, dê uma chance para ele. Dizia a fazendeira. ― Olhe só a carinha de arrependimento. Coitadinho, ele quer apenas uma segunda chance. Dizia a mulher. O esposo, porém estava receoso, e o histórico do candidato ao emprego não era dos melhores. ― Todo mundo erra, meu querido. Dizia ela compadecida pelas feições amorosas e pedantes do lobo, que sentado ao sofá mais parecia um dócil gatinho de estimação. ― Se o senhor me contratar, não irá se arrepender. Disse o lobo com eloqüência. O fazendeiro, mesmo relutante, não resistiu a tanta persuasão. ― Está bem meu rapaz. O emprego é seu, mas olhe lá em, estou lhe depositando minha confiança. Disse o homem, em seguida passando as tarefas. ― Começa esta noite, lhe darei uniforme e lanterna para você realizar a vigia. O lobo então quando chegou a noite foi ao seu posto de trabalho, e o fazendeiro retirou-se para o descanso. Quando o dia amanheceu, e ele foi ver como fora a primeira noite de trabalho do lobo. Porém não o encontrou. Nem ao lobo, nem seus cordeiros, que tinham desaparecidos sem deixar vestígios.
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